Frio ou calor?
O clima pode fazer as pessoas mais ou menos felizes?
Ontem eu estava em minha cidade natal debaixo de chuvas e trovoadas! Havia feito calor mas o frio voltou com raios e trovões de tirar o chapéu. A inauguração do Estúdio Profissional de Áudio da Universidade Católica de Pelotas, um dos maiores e mais bem equipados do sul do Brasil, estava marcado para as 10,30 hs, no momento exato em que a cidade estava debaixo de uma tempestade. A cidade com ruas inundadas impedia o acesso de muitas pessoas ao local da cerimônia. Na entrada do prédio, a impressão é que seria difícil o evento dar certo, pois os que chegavam pareciam náufragos assustados. Porém quando as portas do Estúdio se abriram e fomos ocupando e nos deliciando com o belíssimo e aconchegante espaço, acusticamente tratado, coberto com bom gosto por tecidos de cores perfeitamente selecionadas, utilizando madeiras corretamente aplicadas, portas especiais e um enorme e belo vidro que separa o aquário da sala viva, tudo mudou. O numero de convidados era maior do que se imaginava e em poucos minutos, com a chegada do Reitor, foi dado início ao cerimonial.
É impressionante como as pessoas tem o dom maravilhoso de abstrair-se de questões paralelas para mergulhar no que realmente interessa. Em poucos instantes o “clima” era outro (lá dentro). Um misto de descontração e cumplicidade com algo sagrado que estava por acontecer, tomou conta de todos. Música tocada ao vivo, por músicos superlativos, violino, violão e percussões, interpretação, intensidade e repertório corretos, foram aquecendo nossos corações suavemente. Mas antes de continuar …
Alguns anos atrás apresentei a Dra. Myriam Cunha, hoje Pró-Reitora da universidade, um projeto de curso para preparar produtores de discos com diploma de nível universitário (produção de trilhas sonoras de filmes, publicidade, gestão de negócios, marketing e legislação na música, direitos autorais…). Ela recebeu a idéia com muito interesse e hoje estamos comemorando com enorme sucesso o terceiro ano de funcionamento que se inicia em 2010, quando haverá uma primeira turma formada. O curso, Tecnologia em Produção Fonográfica*, único no pais em sua abrangência, tornou-se um aglutinador de talentos da região e cresceu transformando sonho em realidade.
Seria sonhar demais ter um estúdio próprio na Universidade para atender os alunos do curso. Mas o Reitor Dr. Alencar Proença, uma pessoa muito positiva e visionária, abraçou o projeto potencializando-o de tal forma que fomos muito além.
Nos discurso de inauguração do Estúdio Dr. Alencar destacou o acontecimento como um momento histórico para a cultura de nossa cidade e para o sul do Brasil (quiçá para todo o país) e foi extremamente generoso comentando que eu me tornara um símbolo positivo para nossa cidade e que aquela cerimônia não teria acontecido sem minha presença (ele enfatizara várias vezes o assunto quando buscávamos uma data). E finaliza frisando, com toda generosidade do mundo, que eu era na verdade o homenageado daquele encontro. A emoção era tanta em meu coração que eu parecia flutuar de felicidade ouvindo suas palavras. Parecia não caber em meu corpo físico. Diante de tantas autoridades presentes, amigos, mídia local, artistas, alunos do curso, foi difícil evitar que as lágrimas corressem pelo rosto.
Após o espaço ser ritualisticamente abençoado, momento muito bonito, descontração geral. Entre taças de champagne e brindes entusiasmados, abraços e sorrisos amistosos, uma adolescente, aluna do curso, revela-me que sua família é de outra cidade e que se deslocara para Pelotas afim de realizar seu sonho. Como é bom criar esperança para as pessoas…
Depois da longa viagem de volta para casa, agora lembro de tudo com emoção intensa ainda pleno do amor e atenção que recebi.Retomo minha rotina e percebo que há vários assuntos pendentes e urgentes para resolver. Mas o Rio está quase nos 40 graus, o sol que grita lá fora e o mar (milenares símbolos a nossa disposição) convidam-me a fazer uma pausa. Um mergulho na água do mar e um pouco de energia solar vai ser muito saudável. Como dizia Aristóteles, o estado de Eukrasia, de boa saúde, reside no equilíbrio entre calor e frio. Na mais completa solidão e anonimato, em contraste com a festa de ontem, porém sentindo-me irmão de toda natureza, dos que compartilham a areia, dos bichos da Mata Atlântica ali ao lado, miquinhos, tucanos, esquilos, sanhaços e pássaros de toda espécie, sem esquecer dos menos belos mas não menos valiosos ouriços-cacheiros, cobras, lagartos e até os mal vistos gambás, morcegos e as corujas, animais noturnos (há pouco salvei uma pequena lagartixa que quase se afogava em minha banheira).
Sim, o sol e o mar, e essa legião de “amigos” também me fazem muito feliz.
Assim concluo que, a felicidade é possível tanto nos climas quentes como nos frios, seja debaixo de sol escaldante ou mergulhado na maior das intempéries. Desde que haja amor…
*Informações completas do curso no site da UCPEL: www.ucpel.tche.br. Buscar em graduação.